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Casa Portuguesa
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Modelos Globais

Uma casa representa de algum modo um pouco daquilo que somos. É o lugar que nos recolhe e aos nossos objectos. É o lugar onde acumulamos memórias, que encerra as nossas ambições, ensejos, e anseios também, onde depositamos o nosso quotidiano, como se este pudesse ganhar contornos tangíveis. Há sempre uma casa onde crescemos. Uma casa onde estudámos, onde amámos, ou onde simplesmente, estivemos. Há sempre uma casa que recordamos, e uma casa onde morremos. Como há sempre uma casa onde voltamos.

Numa aparente contradição, as paredes de uma casa encerram o espaço onde podemos ser livres, longe de quaisquer constrangimentos sociais, morais ou políticos, e sob a sua protecção, revela-se o espaço dedicado à intimidade. Nesse sentido, uma casa torna-se numa espécie de possibilidadede expressão individual daquele que lhe pertence: um objecto íntimo.

A Ideia de Casa pressupõe a ideia de habitar e, por isso, também a ideia de um ocupante que a toma um Lar. Onde se passa parte significativa da vida, onde se busca protecção física e psíquica, e onde cada cidadão se reconhece, afastado da normativa do ser social. Por isso, a cada casa estão associados conceitos como privacidade, intimidade e, geralmente, família.

No entanto, uma casa é simultaneamente um lugar de encenação: ela revela não apenas aquilo que somos, mas aquilo que ambicionamos ser. Nesse sentido a casa torna-se num modelo de representação de cada ser, como se cada casa fosse uma espécie de primeira extensão externa de cada um de nós; sobrepondo àquilo que nos é mais privado uma dimensão iminentemente pública.

Todas estas noções associadas à domesticidade que caracterizam a organização tipológica e funcional da habitação moderna são na verdade conceitos recentes, padronizados pela ascensão de uma classe média capaz de exigir um espaço próprio, donde herdamos todo um esquema de organização da vida doméstica, que comporta em si mesmo um conjunto de normativas associadas ao habitar; que é, na verdade, um reflexo, e ao mesmo tempo uma imposição, de toda uma conduta social, afectiva, e comportamentais da sociedade moderna.

A Casa é hoje uma espécie de estereótipo, um lugar comum que ainda assim aceitamos como nosso.

Casas Locais

No entanto sabemos que todas as alterações observadas ao longo das últimas décadas, nomeadamente em Portugal, interferem decisivamente nos modos e hábitos de vida colectivos e singulares. Dilui-se a fronteira entre local e global, torna-se indistinta a esfera pública da privada, manipulamos o material com a mesma agilidade com que recorremos ao digital, transformamos o orgânico em tecnológico. Do tecido social de há trinta ou quarenta anos apenas nos resta o revivalismo e o anacronismo.

Há medida que alteramos hábitos de consumo e de lazer, índices de educação e cultura, dogmas, modelos e ideais, o nosso espaço colectivo expressa-se cada vez mais pelo singular; e cada indivíduo presta-se, sobretudo, na medida pela qual se distingue dos seus semelhantes.

Nesse sentido há um paradoxo evidente entre aquilo que é a normativa habitacional – o espaço do quotidiano – e a necessidade de o individualizar. Se cada um procura o seu significado naquilo que lhe é próprio, e singular, todo o espaço a ele destinado deveria ser, então, o reflexo disso mesmo: um espaço que espelhasse a sua própria natureza e os seus hábitos. Um espaço que se moldasse aos seus usos e costumes, que servisse as suas necessidades, e que de algum modo materializasse a sua forma de reflectir aquilo que o rodeia.

O modelo de habitat normativo colide com os atributos da contemporaneidade. E isso é desde logo visível na tipificação tipológica e imaginética – oposta ao ser singular –, mas também, de um modo mais simples até, na contradição de termos em relação aquilo que cada habitat oferece hoje ao sujeito contemporâneo. Porque se todo o conjunto de alterações provindas de campos tão distintos como a psicologia, as artes, a politica, a religião, a sexualidade, a antropologia implica consequências na transformação das dinâmicas dos núcleos familiares, tal facto não se reflecte no espaço do quotidiano.

Se há alguma conclusão a retirar de tudo isso, é a de que habitamos num espaço físico que (já) não é o nosso.

Casa Portuguesa

Com o advento da era moderna a Casa tornou-se no objecto de estudo que mais significado teve no desenvolvimento da arquitectura, permitindo uma investigação laboratorial no que se refere à aplicação de ideias, conceitos, formas e tecnologias construtivas. Pela sua escala reduzida, pela aplicação de um programa funcional sempre actual, porque sempre alvo de revisão, a casa é, para a arquitectura, aquilo que mais se aproxima a um protótipo; tendo servido como extensão física de manifestos teóricos em várias épocas, sobretudo no eclodir das vanguardas modernas.

Aquilo que propusemos a doze autores de arquitectura foi que se usasse essa condição protótipal da Casa como possibilidade de experimentação e de revisão de modelos e conceitos relacionados com o habitat contemporâneo; tendo como matéria de trabalho a realidade portuguesa - hoje...
A cada atelier participante foram sugeridos um conjunto de pressupostos que deveriam enquadrar a sua investigação. Dados estatísticos (fonte Instituto Nacioanl de Estatística) permitiram indicar a família tipo em Portugal, a tipologia usualmente posta em prática, o custo médio de construção, ou o tipo de tecnologia associada à edificação de casa unifamiliar.

A experiência cujo resultado se apresenta aqui pressupõe entender o que pode ser a célula habitacional hoje, procurando reflecti-la naquilo que é a sociedade portuguesa actual. E isso é sinónimo de reflexão em torno da natureza de cada um dos espaços que compõem uma casa, o modo como se relacionam entre eles, a sua centralidade interna, as ligações e separações que propõem para albergar o nosso quotidiano. Porque neste modelo tipológico reside toda a capacidade interpretativa de modos de vida. Como se a casa fosse a célula mínima de todo um modelo de sociedade em análise.

No entanto, mais do que apenas uma mera experiência de investigação, A Casa Portuguesa pretende veicular uma nova realidade arquitectónica. Nesse sentido cada uma das doze Casas Portuguesas presentes nesta exposição foi alvo de uma encomenda real, obedecendo aos constrangimentos habituais presentes na produção arquitectónica corrente, nomeadamente em relação ao controlo de custos e o recurso a formas e tecnologias construtivas passíveis de serem implementadas.

Nesse sentido a exposição A Casa Portuguesa dará origem a um bairro piloto situado no Empreendimento Corte Real, na área de expansão da aldeia de Sarilhos Pequenos, no Concelho da Moita, e integram o Plano de Desenvolvimento Local, desenvolvido em parceria com a Câmara Municipal da Moita. Um dos principais objectivos de esta investigação é assim avaliar o próprio mercado, sendo que cada uma das 12 casas será posta à venda ao público em geral, não devendo ultrapassar os valores de venda correntes no mercado imobiliário.

01_a.s*
O Labirinto da Saudade

02_Atelier do Corvo
Casa em Montado de Sobro


03_B quadrado
Casa plug-n’-play.pt


04_marcosandmarjan
Lofting House


05_S'A arquitectos
Pentaminó


06_go/a arquitectos
Casa Volare


07_PAHR!
Casa PARA[SOL]


08_AIRRIGHTS
Casa Ascendente


09_Pedro Campos Costa
Casa Não Casa


10_Nuno Merino Rocha
Casa dos Três


11_Bernardo Rodrigues
O Labirinto e a Borboleta


12_Pedro Gadanho
Casa Schizome